quarta-feira, 16 de outubro de 2013

voar com uma vassoura magicka

Entretanto o Vôo na Vassoura parece ser mais do que algo simplesmente uma lenda ou um ritual simbólico. Para muitos pesquisadores esse vôo era associado com alguma forma de viagem astral ou à imaginação do "piloto" e não a um ato físico. Entretanto os registros antropológicos, sem contar as tradições pagãs e ocultistas iniciáticas possuem evidências fortes de que o vôo realmente pode ser realizado.

Na continuação do texto do Asno de Ouro lemos que:

"[...] E, quando a meia-noite chegou, ela me levou com cautela a uma câmara superior, e me fez olhar pelo vão da porta: primeiramente eu a vi se despir de todas as suas roupas e apanhou de dentro de uma espécie de cofre diversos tipo de pequenas caixas e potes, dos quais abriu um e deixou escorrer escorrer por seus dedos o óleo que dali saia, esfregando-o então por todo o corpo, das solas dos pés até o topo da cabeça, e quando começou a falar consigo mesma, segurando uma vela em sua mão, parte de seu corpo tremeram e ela esperou..."

Esse óleo mágico não é obra da ficção e sim uma substância real utilizada desde a antiguidade até os dias de hoje para permitir que mulheres e homens saiam voando por ai. Em um relato tirado do livro O Breviário de Nostradamus existe o trecho que relata o uso do ungüento:

"Lembrando-me das instruções de Renata, fechei a porta, a chave. Em seguida, tirei de um saco um pequeno pote que continha um unguento que me dera Renata e pus-me a examiná-lo, vendo que consistia numa pasta oleosa, de cor verde-escura e de cheiro penetrante e desagradável.

"Despi-me completamente, sentei-me sobre um manto e fiz uma forte fricção com o unguento mágico. Friccionei a fronte, o peito, os sovacos e o vão das pernas, repetindo as palavras : Emen-hetan ! Emen-hetan ! Emen-hetan ! "O conteúdo do pote queimava ligeiramente a pele e seu cheiro causava-me um pouco de tontura. Essa tontura aumen- tava. Não perdia, porém, os sentidos, e a razão continuava clara. Experimentava somente uma grande debilidade, até que meus braços caíram de cansaço; meus olhos se fecharam, apesar de fazer esforços para mantê-los abertos. Depois o coração começou a pulsar de um modo acelerado, a tal ponto que tive receio de que se rompesse.

"Entretanto, não sentia a menor dor de cabeça, o que me causou grande estranheza. Somente me faltavam forças, chegando quase a não poder mover-me. Assim passou bastante tempo, a ponto de dizer comigo mesmo: "Muito bem, é só isso... É claro que não passa de brinquedo de crianças. Este unguento só produz efeito sobre os que adormecem ou perdem o sentido; mas para os que têm urna cabeça firme, como a minha, tudo se reduz a um envenenamento passageiro. Menos mal se não houver outras conseqüências...

"Enquanto raciocinava desta maneira, fiz um esforço supremo para abrir os olhos que estavam fechados... E foi, então, que pus em dúvida se estava sonhando ou não. Como tinha, porém, recuperado as forças, dei um salto e convenci-me de que não dormia.

"A vela, que estava sobre uma mesinha, cuja luz iluminava meu quarto, tinha desaparecido, como que se evaporado diante dos meus olhos. A obscuridade que me rodeava era absoluta, não sendo, porém, a escuridão do interior de uma habitação, e sim a do espaço, ao ar livre."

Este ungüento voador geralmente é uma mistura de ervas e outros materiais que, quando combinados corretamente e espalhados da maneira certa pelo corpo, fazem a pessoa voar. As receitas mais antigas sempre traziam alguns ingredientes que se mostravam claramente inaceitáveis socialmente ou simplesmente impossíveis de serem conseguidos. Muitos afirmam que isso ocorria de forma a desencorajar qualquer um de tentar compor a mistura e usá-la, já que outros dos ingredientes eram compostos se substâncias químicas poderosíssimas que poderiam, e podem, envenenar ou matar aquele que a manejar sem nenhum tipo de conhecimento; outros apontam que a tendência das lendas é sempre partir para o lado do exagero, e que uma simples receita que pudesse ser preparada em casa, se não causasse o resultado desejado acabaria com o mito. Além disso, por mais tóxicos que fossem alguns dos componentes, se não houvesse o elemento de terror, não haveria como assombrar aqueles que ouvissem das próprias bruxas e bruxos seus feitos.

É importante notar que com o desenrolar dos séculos, conforme as tribos mais antigas da Europa foram desintegradas, destruídas ou assimiladas, uma mudança lenta mas meticulosa das crenças ocorreram dentro das tradições do xamanismo e das práticas de magia tribal. O simples uso de ervas foi combinado com a ação de espíritos mais mundanos e sinistros, e com o surgimento da moral cristã esses espíritos ganharam a roupa do diabo e de demônios. Assim pessoas sob o efeito de certas ervas eram consideradas pessoas sob o controle de forças infernais, vítimas do ergot que se formava no trigo, um tipo de fungo, eram acusadas de serem lobisomens, por exemplo.

Deixando a fé de lado e tirando o microscópio da gaveta, essas tradições antigas possuem uma forte ligação com os cultos a vegetais alcalóides, não diferentes do culto do Santo Daime ou da Ayuhasca. Um Alcalóide é uma substância que produz um acentuado efeito no sistema nervoso central por conter uma considerável quantidade de nitrogênio em sua composição. Diversas culturas tem utilizado plantas que produzem alcalóides como fonte de venenos e alucinógenos ao longo da história.

Assim como os xamãs americanos as "bruxas" européias também possuíam suas próprias receitas neste sentido. A atropina e a escopolamina são dois exemplos de alcalóides usados na preparação de unguentos tradicionais. Plantas como beladona e a mandrágora forneceram a base para a produção da "Formula do Vôo".

Como vimos não apenas a receita correta era necessária, mas também o conhecimento de certas palavras e a maneira apropriada de se espalhar o ungüento pelo corpo. E aqui volta o uso da vassoura. Uma das formas de se utilizar o ungüento ela espalhá-lo pelo cabo de uma vassoura que era então esfregado na vagina, ou nos testículos e pênis, e no ânus. Esse ato não era apenas um ato simbólico ou masturbatório, a fricção da madeira acelerava a absorção do preparado pelas mucosas, não apenas esquentando a região mas feríndo-a, fazendo a mistura entrar rapidamente na corrente sanguínea. Além disso, o cabo da vassoura era esfregado nos pulsos e pescoço, fazendo a pessoa de fato agarrar-se à vassoura, existem relatos que afirmam ainda que um ou mais orgasmos em um contexto ritualístico alcalóide podiam aumentar a eficácia da poção.

No primeiro livro da Magia Sagrada de Abramelim, o Mago, de 1458, no capítulo IV, existe uma passagem que relata este vôo, ainda que sem a presença da vassoura:

"Em Lintz eu trabalhei com uma jovem, que uma noite me convidou para segui-la, assegurando-me que, sem qualquer risco, iria conduzir-me para um lugar onde eu muito desejava encontrar-me. Me permiti ser persuadido por suas promessas. Ela, então, deu-me um ungüento, com a qual eu esfreguei os pulsos e tornozelos, o que ela fez também; e, num primeiro momento, pareceu-me que eu estava voando no ar, no lugar que eu queria, e que eu não havia de modo algum mencionado a ela.

Eu me silencio, por respeito, sobre o que vi, que foi formidável, e parecendo-me ter lá permanecido um longo tempo, eu senti como se eu estivesse despertando de um sono profundo, e eu tinha muita dor no minha cabeça e profunda melancolia. Voltei-me e vi que ela estava sentada ao meu lado. Ela começou a contar-me o que tinha visto, mas o que eu tinha visto era totalmente diferente. Eu estava, no entanto, muito surpreendido, porque pareceu-me como se eu tivesse estado realmente e corporeamente no lugar, e realmente ter visto o que tinha acontecido".

E sobre as palavras mágicas? Eles teriam poder também? Nos anos 1970 era muito comum que as pessoas que eram iniciadas na religião do amor experimentassem doses de LSD para se liberarem das amarras do corpo. Naquela época tomar a droga não era apenas um ato para "chapar" e sim uma experiência mística e religiosa e era tratada como tal. Desta forma a pessoa sendo iniciada tinha um guia para acompanhá-la pela viagem para que ela não se tornasse uma "bad-trip". Da mesma forma, em religiões abertas como o culto à Ayahuasca, a pessoa que experimenta a droga o faz sob a supervisão de guardiões que se certificam que a viagem não se torne um pesadelo.

No caso do vôo pagão, as palavras recitadas serviam para preparar a mente e a alma da pessoa para o que estava por vir, ou repetir certo encanto ou um mantra, a pessoa começava a entrar no espírito do vôo enquanto ainda podiam controlar plenamente sua mente para não se desesperar quando a experiência de fato começasse. Isso é comum em todas as experiências mágicas e religiosas, de missas cristãs a orgias satânicas, assim de fato essas palavras são importantes, seja pelo efeito mágico seja pelo efeito psicológico, ou ambos.

O tom das palavras recitadas e seus significados muitas vezes são a diferença entre voar pelos céus observando a terra ou uma turbulência assustadora em companhia de criaturas apavorantes, assim eram comuns pedidos de proteção para deuses ou afirmações de auto controle, como por exemplo:

Que minha vontade mergulhe nesta poção,
e guie os meus olhos para além do véu.

Nenhum comentário: