quarta-feira, 16 de outubro de 2013

segunda forma de voar, magicka

Receita 1: Lamiarum Unguenta (Ungüento das Feiticeiras)


Tirada do já citado livro de Giovanni Battista Della Porta, registrada em 1558 d.C.

"Embora elas misturem uma grande dose de superstição, é evidente, no entanto, para o observador que estas coisas podem resultar de uma força natural. Repetirei o que me foi dito por elas. Fervendo (certo tipo de gordura) em um vaso de cobre, elas se livram de sua água, espessando aquilo que resta da fervura. Então elas a guardam, e tornam a fervê-la antes de usar: com isto, eles misturam o aipo, o acônito[1], folhas de álamo e fuligem. Ou, em alternativa: Conium[2], Acorus[3], cinco-folhas[4], o sangue de um morcego, uva-de-cão (Solanum)[5] e óleo, e se elas ali misturam outras substâncias, elas não diferem muito dessas."

Della Porta prossegue mostrando como esta mistura era utilizada, lembrando-se que antes do uso, a mistura deveria ser aquecida novamente:

"Então elas as esfregam em todas as partes do corpo, primeiro esfregando-a para devolver-lhe a cor avermelhada e esquentá-la, acabando com qualquer matéria que havia se condensado por causa do frio. Quando a carne é relaxada e os poros abertos, elas acrescentam a gordura (ou o óleo que é substituído por ela) - para que o poder dos sucos possa penetrar mais e tornar-se mais forte e mais ativa, sem dúvida."

Existem dois adendos que podem ser feitos aqui. Existe a menção na receita de "certo tipo de gordura" e sangue de morcego. A gordura obviamente é uma base para a pomada que será feita e foi a responsável por inúmeros mitos que favoreciam a igreja católica. A gordura usada, gordura animal, ganhou a imaginação popular como sendo originária de bebês não batizados, ou seja, crianças pagãs. A igreja com isso aumentou absurdamente o número de batismos, serviço pelo qual cobrava, de crianças por onde quer que este mito se espalhasse. Posteriormente, quando o número de crianças não-batizadas quase desapareceu, graças ao medo e ao preconceito criado, o mito se converteu ao mito da gordura de um recém nascido, o que novamente era uma bênção para os servos de Deus. Na época, devido às condições de saúde e higiene era comum que crianças morressem no parto. A parteira então podia ser acusada de bruxaria, já que havia "matado o infante" para adquirir sua gordura. Isso fez com que as pessoas parassem de procurar parteiras e buscassem o auxílio da igreja nos partos, além de fazer com que todos pedissem que padres abençoassem a mãe, serviço cobrado, para que nenhuma bruxa matasse suas crianças.

O sangue de morcego aparece, num primeiro momento, como um ingrediente maldito, mas sob um olhar mais calmo possui uma função muito importante. Note que antes de passar no corpo o ungüento, a bruxa o esfregava com as mãos até devolver-lhe a cor avermelhada. Duas substâncias da segunda receita tem essa capacidade, o cinco-folhas e o sangue. Uma vez que a mistura era re-fervida, assim que esfriava para uma temperatura em que pudesse ser manuseada, era esfregada entre as mãos até que ficasse ruborizada novamente, ai era o momento de a espalhar pelo corpo. O sangue é parte deste mecanismo para se saber quando a mistura está pronta, e um morcego possui a quantidade ideal para a mistura.

Este é um relato antigo que busca explorar os elementos, mas não as quantidades envolvidas. Hoje, graças à homeopatia, é possível se encontrar os extratos dessas plantas para serem usados. Da mesma forma homeopatas podem, caso persuadidos, te ajudar a descobrir as medidas seguras para a mistura. Lembrando que ela deve ser esfregada no corpo e não ingerida.

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